É fato inconteste e amplamente divulgado que o navio Kasato Maru trouxe ao Brasil a primeira leva de imigrantes japoneses em 1908, iniciando de maneira efetiva o processo de imigração. Hoje em dia muitos têm - talvez em função de telenovelas - a limitada e distorcida imagem de que o fenômeno imigratório iniciou-se de modo ingênuo e romântico, com a chegada de povos exóticos que se aventuraram a “fazer a América” num país tropical, sensual e feliz.
O processo de imigração japonesa no Brasil iniciou-se bem antes de 1908 e em condições pouco românticas. O Kasato Maru foi apenas o primeiro resultado de anos de discussões, impasses e negociações entre Brasil e Japão. Para entender por que a imigração ocorreu, é preciso antes entender a situação sócio-político-econômica em que se encontravam ambos os países na segunda metade do século XIX.
No século XIX a economia do Brasil era agrícola e extremamente dependente da monocultura cafeeira. A cultura do café, por sua vez, dependia totalmente da mão-de-obra de escravos negros. Em 1888, atendendo a pressões políticas e movimentos humanitários, o governo brasileiro aboliu a escravidão no país, e os senhores do café tiveram que buscar soluções para a crescente falta de mão-de-obra. Antes mesmo da abolição da escravatura, o governo brasileiro tentou suprir a falta de trabalhadores com imigrantes europeus, mas as péssimas condições de trabalho e de vida dadas pelos patrões cafeicultores, acostumados a tratar de forma sub-humana sua mão-de-obra, além de desmotivar a vinda de imigrantes fez com que alguns países, como a França e a Itália, até impedissem durante alguns anos que seus cidadãos emigrassem para o Brasil. Assim, o governo brasileiro passou a cogitar trazer imigrantes da Ásia.
Não bastava, entretanto, trocar um tipo de imigrante por outro. No século XIX os brancos cristãos tinham um forte preconceito contra todo o resto da humanidade, e no Brasil os asiáticos eram tidos como “negros amarelos”. Em 1880, Oliveira Martins, escritor e político português, chegou a publicar argumentos contra a imigração asiática afirmando que “a perigosa tentação de ir buscar braços a outro viveiro de raças inferiores prolíficas embriaga muitos espíritos”, e concluía com “um Brasil europeu e não asiático, uma nação e não uma colônia, eis aí o seguro porvir da Antiga América portuguesa”. Entre julho e agosto de 1892, o jornal Correio Paulistano publicou artigos de Francisco Cepeda que se referia aos asiáticos com expressões como “se a escória da Europa não nos convém, menos nos convirá a da China e do Japão”, e que “o chim é bom, obediente, ganha muito pouco, trabalha muito, apanha quando é necessário, e quando tem saudades da pátria enforca-se ou vai embora”.
|
Mas o que fazia os japoneses se interessarem em ir para lugares distantes cuja população não era exatamente receptiva? O Japão da segunda metade do século XIX foi um país de dramáticas transformações. Durante dois séculos e meio o Japão esteve isolado do resto do mundo, sob o controle político dos xóguns da família Tokugawa. A sociedade japonesa era feudal e a economia estava estagnada num sistema agrário e dependente da cultura do arroz, enquanto as potências ocidentais, industrializadas e tecnologicamente avançadas, conquistavam colônias na África e Ásia. A partir de 1854, com navios americanos e ingleses exigindo com uso de canhões a abertura dos portos japoneses, o enfraquecido governo xogunal teve que ceder crescentes privilégios comerciais aos estrangeiros, o que gerou uma crise interna sem precedentes. Revoltas levaram a uma guerra civil, que culminou em 1868 com a vitória dos que queriam a restauração do poder ao imperador, e que defendiam a modernização rápida do Japão em moldes ocidentais. Era o início da Era Meiji (1868-1912).
![]() |
CHEGAM OS JAPONESES
Houve o impacto do encontro de dois povos que se desconheciam. É sabido que popularmente os brasileiros tinham preconceito contra os japoneses - um preconceito todo fundado em mistificação, uma vez que até a vinda dos imigrantes não havia um convívio de fato entre brasileiros e japoneses.
Contrariando as expectativas negativas de como efetivamente eram os japoneses, J. Amândio Sobral, inspetor de imigrantes do Estado de São Paulo, redigiu um extenso artigo publicado no jornal Correio Paulistano de 26 de junho de 1908, descrevendo suas impressões sobre os imigrantes nipônicos. Sob efeito deste primeiro impacto, em seu texto Sobral expressa abertamente que os elogios que faz ao comportamento e à aparência dos japoneses não eram um exagero de sua parte, relatando que o grau de limpeza de “gente de humilde camada social do Japão” era qualificado como “inexcedível”, e que “houve em Santos quem afirmasse que o navio japonês apresentava em sua 3ª classe mais asseio e limpeza que qualquer transatlântico europeu de 1ª classe”. Ao deixarem o trem que os trouxe de Santos à hospedaria de imigrantes em São Paulo, ele observou que “saíram todos dos vagões na maior ordem e, depois de deixarem estes, não se viu no pavimento um só cuspo, uma casca de fruta”. Na hospedaria, os japoneses “têm feito as suas refeições sempre na melhor ordem e, apesar de os últimos a fazerem duas horas depois dos primeiros, sem um grito de gaiatice, um sinal de impaciência ou uma voz de protesto” (...) “surpreendeu a todos o estado de limpeza em que ficou o salão: nem uma ponta de cigarro, nem um cuspo, perfeito contraste com as cuspideiras e pontas de cigarro esmagadas com os pés de outros imigrantes”.
![]() |
Dois aspectos que chamaram a atenção de Sobral são curiosos. Ele observou que a bagagem dos japoneses “não parece bagagem de gente pobre, contrastando flagrantemente com os baús de folha e trouxas dos nossos operários”. Os japoneses eram imigrantes pobres, mas agiam com dignidade e educação. Trouxeram malas de vime, roupas e objetos simples, mas limpos ou novos. Pela descrição da bagagem no relatório, verifica-se que todos tinham poucas mas mesmas coisas: escova e pó dental, pente e navalha de barba (itens de higiene pessoal que na época muitos imigrantes europeus e até mesmo brasileiros não tinham); futons, makuras (travesseiros) de madeira e casacos (artigos têxteis caros para imigrantes); pequenas ferramentas, utensílios de cozinha e frasquinhos para shoyu. A maioria trouxe livros, tinta e papel (coisas que eram consideradas um “luxo” para trabalhadores braçais). De 781 pessoas, verificou-se que menos de 100, ou cerca de 13% delas, eram analfabetas - um baixo índice de analfabetismo na época. Estes eram os objetos que os japoneses, mesmo sendo pobres, se esforçaram para comprar e trazer do Japão, e que consideravam indispensáveis para começar uma vida longe da terra natal.
Outro foi o grau de confiança que os japoneses tinham em suas mulheres, “a ponto de, para não interromperem uma lição adventícia de português, lhes confiarem a troca de seu dinheiro japonês em moeda portuguesa”. Na época, os homens no ocidente não confiavam em suas esposas para lidar com assuntos relacionados a dinheiro, mas as japonesas faziam câmbio para seus maridos. Os imigrantes japoneses eram pobres, mas não eram miseráveis.
|
É difícil precisar que impressões os japoneses tiveram ao chegar no Brasil, visto que os imigrantes do Kasato Maru não deixaram registros escritos sobre isso. É certo, entretanto, que os membros da primeira leva de imigrantes não tinham, em princípio, a intenção de se radicar de vez no Brasil. Trazidos pela empresa Teikoku Imin Kaisha (Companhia Imperial de Imigração), que firmou em 1907 contrato com a Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo para alocar 3 mil imigrantes até 1910 como empregados de várias fazendas de café no estado, os japoneses pretendiam ficar por cinco anos - período em que, de acordo com informações dadas pelos agentes de emigração no Japão, daria para ganhar o suficiente para retornar com economias. Os imigrantes pioneiros tinham a certeza de que iriam trabalhar muito, de que iriam ter que enfrentar dificuldades de comunicação devido a diferenças extremas de língua e costumes, mas a expectativa de poder retornar ao Japão com poupanças significativas os motivava a manter o espírito elevado. Mas os imigrantes logo descobririam que seria necessário mais do que a determinação samurai para sobreviver à realidade que os aguardava no Brasil.
MEIAS VERDADES, TOTAL SOFRIMENTO.
|
Outras informações eram convenientemente vagas ou incompletas. O contratador brasileiro comprometia-se a “dar moradia” a cada família imigrante - mas no contrato de imigração não se especificavam as condições de tal moradia. A alimentação era por conta de cada família - mas não se explicava o exploratório “sistema do armazém” até que os imigrantes já estivessem na fazenda.
As 781 pessoas do grupo pioneiro que chegou ao Brasil em 1908 no Kasato Maru foram alocadas em 6 fazendas de café no interior de São Paulo. De imediato todas as expectativas positivas dos imigrantes, e até mesmo dos representantes das empresas que intermediavam a vinda de imigrantes, foram desmanteladas pela realidade das coisas no Brasil.
![]() |
Dificuldades de entendimento entre os imigrantes e fazendeiros devido à total diferença de cultura, idioma, usos e costumes geravam constantes atritos. "Capitães-do-mato" e "capangas" armados para levar os imigrantes aos cafezais e fiscalizar seu trabalho passavam aos japoneses a sensação de que seus contratadores não lhes tinham confiança e queriam mantê-los prisioneiros como mão-de-obra escrava. Obrigados a comprar comida e itens de primeira necessidade apenas no armazém da fazenda, os imigrantes logo perceberam que ao invés de receber um salário no fim do mês passaram a ter dívidas com os fazendeiros, dado os preços exorbitantes cobrados no armazém.
Pior mesmo era a remuneração dos imigrantes, que de acordo com as propagandas das empresas de imigração era calculada sobre uma média superestimada de 9 sacos de 50 quilos de café colhido por dia por família, que no câmbio da época equivaleria a 5 ienes e 50 sens por dia (em dois dias de trabalho no Brasil os imigrantes esperavam ganhar o salário mensal de um policial no Japão). Entretanto, ao chegar nas fazendas os japoneses foram colocados para trabalhar com cafeeiros velhos, de baixa produtividade, que resultavam numa colheita escassa, que mal chegava a 2 sacos colhidos por dia por família. Do dia para a noite passando a ser explorados como mão-de-obra escrava, empurrados para a miséria e correndo risco de vida pela situação de abandono, os imigrantes não tiveram outra alternativa senão fugir das fazendas e buscar outras profissões. Até o fim de 1908 apenas 359 das 781 pessoas que chegaram em junho daquele ano no Kasato Maru ainda se encontravam nas fazendas contratantes. Na Fazenda Dumont, que recebeu o maior grupo de imigrantes japoneses (210 pessoas), ninguém ficou.
MOBILIDADE PROFISSIONAL E O INÍCIO DAS COLÔNIAS
|
O fracasso da alocação de imigrantes como mão-de-obra assalariada em fazendas de café levou a uma alteração na forma pela qual se deu continuidade ao processo imigratório. Aproveitando a onda de expansão desenvolvimentista para o interior que então ocorria no Brasil, a partir de 1910 as empresas de emigração japonesas passaram a comprar grandes áreas de mata virgem para instalar as shokuminchi (colônias ou núcleos coloniais). Por este sistema de colônias os imigrantes passaram a vir para o Brasil como adquirentes a prazo de lotes de terra pertencentes às empresas de emigração, desbravando áreas distantes e mata virgem sem ajuda governamental para se tornarem pequenos produtores agrícolas. Ao invés de empregados em regime de semi-escravidão em cafezais, os imigrantes passaram a vir como pequenos agricultores independentes produtores de arroz e algodão (na época produto-base da indústria têxtil mundial, tão valorizado quanto o café). A primeira colônia foi a Colônia Monção, fundada em 1911 na região da estação Cerqueira César da linha férrea Sorocabana, interior de São Paulo, mas logo surgiram várias outras shokuminchi. Este sistema deu origem a várias cidades no Brasil, como os municípios paulistas de Aliança, Bastos, Iguape, Registro, Suzano, e as cidades de Assaí no Paraná e de Tomé-Açú no Pará, que começaram como colônias de pequenos produtores rurais japoneses. Os produtos cultivados nas colônias passaram a variar da pimenta-do-reino em Tomé-Açú, ao chá em Registro, e à atividade granjeira em Bastos.
Desta época de imigrantes pioneiros desbravadores destacam-se as iniciativas de Unpei Hirano e Shuhei Uetsuka. Hirano foi tradutor dos imigrantes do Kasato Maru e intermediou queixas dos imigrantes com os cafeicultores contratantes. Hirano foi um dos que primeiro percebeu que os imigrantes teriam melhores condições de vida e chances de sucesso se não tivessem que se sujeitar às condições impostas pelos contratos de trabalho rural assalariado. Em 1915 fundou a Colônia Hirano na região de Cafelândia, interior paulista, vindo a falecer prematuramente de malária, aos 34 anos em 1919. Apesar dos esforços dos colonos, a Colônia Hirano foi um capítulo trágico da história da formação das colônias de japoneses no Brasil - uma invasão de gafanhotos, seguida por uma grande seca, destruiu as lavouras, e os colonos foram dizimados por uma grave epidemia de malária. Uetsuka veio como representante da empresa de emigração japonesa junto com os pioneiros do Kasato Maru e em 1918 fundou a Colônia Uetsuka perto da estação Promissão da linha férrea Noroeste. Idealista, Uetsuka viveu com os imigrantes colonos, enfrentando as mesmas dificuldades que os demais e tornou-se admirado líder da comunidade, que prosperou.
Os imigrantes nas colônias rapidamente organizaram a vida civil e comunitária nos moldes da distante terra natal. A primeira coisa que fazem ao constituir uma colônia é organizar uma kyõkai ("associação", entidade para tratar de assuntos comunitários) e construir um kaikan ("auditório", salão ou galpão que funciona como sede da comunidade). A segunda providência era cuidar da educação dos filhos. Tamanha era a preocupação dos imigrantes com a educação dos filhos, que ao chegarem a uma fazenda ou colônia imediatamente encarregavam alguém em condições de dar aulas simples de linguagem e matemática às crianças e organizavam-se turmas e horários surgindo assim as nihongakkõs, escolas rurais de ensino elementar em japonês.
Tendo a intenção de retornar ao Japão assim que conseguissem economias suficientes, os imigrantes das primeiras décadas do século XX queriam que seus filhos fossem educados como dainipponjins (súditos japoneses). Ensinar-lhes a língua nipônica e ministrar-lhes ensinamentos sobre a cultura japonesa e o yamato damashii (espírito japonês) era prioridade tal que os pais não hesitavam sacrificar horas de sono e trabalhar mais para que seus filhos, que também trabalhavam na lavoura e nos afazeres domésticos, estudassem "para que quando regressassem ao Japão não passassem vexame". A primeira escola japonesa urbana foi a Escola Primária Taisho, fundada em 1915 em São Paulo, mas havia quem pensasse em fixar-se no Brasil em definitivo. Em 1918 as irmãs Teruko e Akiko Kumabe se graduaram em magistério no Rio de Janeiro, tornando-se as primeiras japonesas a obter diplomas de professoras primárias no Brasil. Em 1919 as irmãs Kumabe também se tornaram as primeiras imigrantes naturalizadas brasileiras.
![]() |
O SURGIMENTO DAS COOPERATIVAS
O espírito empreendedor torna-se uma característica dos imigrantes pioneiros. Um exemplo disto foi personificado por Takehiro Mamizuka, que chegou em 1910 no segundo navio de imigrantes. Em 1912 ele foi ao Mercado Municipal em São Paulo para conhecer os preços dos legumes e das verduras. Percebendo que a cidade estava em rápida expansão e que a demanda por alimentos só aumentaria, ele adquiriu uma pequena propriedade em Taipas, na região norte da cidade, e passou a produzir batatas para vendê-las no centro. Mamizuka é considerado o pioneiro da agricultura de subúrbio, sem a qual os paulistanos de hoje não teriam acesso à indispensável saladinha.
Se por um lado Mamizuka ilustra o tipo louvável de iniciativa individual do imigrante, os japoneses também implantaram no Brasil importantes iniciativas de grupo. Não há um meio de se precisar quando e como surgiu a idéia de se organizar uma cooperativa de produtores agrícolas entre os imigrantes japoneses, mas é fato que a expressão "cooperativa agrícola" aparece pela primeira vez na edição de 5 de setembro de 1919 do jornal Burajiru Jihô, num artigo que conclamava imigrantes a participar do "Syndicato Agrícola Nipo-Brasileiro" em Uberaba, Minas Gerais. Considerado a primeira cooperativa organizada por imigrantes japoneses, o "Syndicato Agrícola" visava "apoiar lavradores na pesquisa de terras adequadas às determinadas culturas, elaboração de contratos, financiamento de capital, compra e venda coletivas, etc., todas as facilidades, com a finalidade de conseguir um desenvolvimento seguro de nossos compatriotas". Embora o pioneiro "Syndicato Agrícola" não tenha durado muito tempo, sua existência inspirou outras iniciativas similares.
|
|
|
No período anterior à 2ª Guerra Mundial (1939-1945), os imigrantes japoneses tinham comportamento e valores parecidos com os dos atuais dekasseguis (brasileiros que emigram para o Japão a trabalho). Os imigrantes não vinham com o intuito de permanecer para sempre na nova pátria, mas o de economizar e voltar em alguns anos para a terra natal. Isso fez com que muitas famílias de imigrantes adotassem estilos de vida espartanos, até mesmo avaros, o que na época gerou um dito popular de que se podia "reconhecer o sítio de um japonês pela beleza de suas plantações e pela miséria de sua casa".
![]() |
SUBITAMENTE INDESEJADOS
|
Literalmente do dia para a noite os imigrantes japoneses passaram a ser alvo de suspeita, perseguição e preconceito. Comunidades inteiras de imigrantes que viviam nas cidades, em especial em Santos e São Paulo, receberam ordem de evacuação - em menos de 6 horas famílias foram retiradas de suas casas e enviadas a fazendas de isolamento no interior. Imóveis, dinheiro e quaisquer bens de valor dos imigrantes foram tomados para "posterior inclusão no fundo de indenização de guerra". O Banco América do Sul e o Hospital Santa Cruz, fundados pelos imigrantes japoneses, tiveram suas diretorias afastadas e passaram a ser administrados por interventores nomeados pelo governo. Reuniões com mais de 5 pessoas passaram a ser proibidas - até festas de aniversário e de casamento foram prejudicadas.
Em agosto de 1942 um navio mercante brasileiro foi afundado por um submarino alemão perto de Belém e a população local, como vingança, destruiu e incendiou casas de imigrantes alemães, italianos e japoneses. A título de fiscalizar e "proteger" os imigrantes, o governo federal resolveu recolher em Acará (atual Tomé-Açu, PA) todos os japoneses, alemães e italianos que residiam na região norte do país. As perseguições aos imigrantes alastraram-se também no litoral do Paraná, pelo interior de São Paulo e de Mato Grosso. Por serem orientais, portanto facilmente distingüíveis no meio da população brasileira, os imigrantes japoneses foram os que mais sofreram ataques e prejuízos com o preconceito popular e com a perseguição governamental. Mas é da sabedoria universal que não existem "guerras justas", e que em toda guerra o que realmente existe é um arrazoado de conveniências que são ocultadas da opinião pública. Apesar da postura antinipônica, o governo brasileiro não apenas tolerava como estimulava imigrantes japoneses a cultivarem o algodão, o bicho-da-seda e a hortelã (menta). Atuando como intermediário na exportação desses produtos para os Estados Unidos, onde o algodão era usado na fabricação de uniformes, a seda na fabricação de pára-quedas e a menta era produto base da indústria química na fabricação de explosivos e em sistemas de refrigeração de motores de alta velocidade, o governo brasileiro também lucrava com o conflito.
|
CAOS E SUPERAÇÃO
Como visto anteriormente, na intenção de manter os "súditos do Eixo" sob vigilância e controle, o governo brasileiro proibiu a publicação de jornais em japonês. Tal medida fez com que os imigrantes, na maioria com conhecimentos limitados de português, fossem privados de informações corretas sobre o que ocorria tanto no Brasil como o exterior, em especial sobre o desenrolar dos acontecimentos da guerra. Vivendo quase à margem da sociedade devido às medidas de perseguição aos imigrantes das nações inimigas, a comunidade nipo-brasileira tinha esperança que sua situação melhorasse se o Japão vencesse a guerra. Haviam imigrantes, entretanto, que diziam "quando" - e não "se" - o Japão vencer a guerra.
Em 1944 o conflito na Europa já dava sinais de arrefecimento, mas no Pacífico batalhas sangrentas ainda eram travadas entre tropas americanas e japonesas. A desinformação propiciou o surgimento de dois grupos ideológicos distintos dentro da comunidade de imigrantes: os kachigumi ("vitoristas", que acreditam que o Japão venceu a guerra) e os makegumi ("derrotistas", que acreditam que o Japão perdeu a guerra). Os kachigumi eram um grupo que reunia imigrantes com formação militar, extremistas paranóicos ao ponto de considerar patrícios que acreditassem que o Japão pudesse perder a guerra como traidores, realizar atentados para intimidar aqueles que acreditassem ser colaboradores dos inimigos e de agir sem qualquer escrúpulo, falsificando de notícias a papel-moeda. Os primeiros sinais do problema surgiram quando várias plantações de menta e casas de processamento de bichos-da-seda de imigrantes japoneses foram destruídas. As autoridades policiais descobriram que outros imigrantes japoneses haviam sido os autores das depredações, mas menosprezaram o ocorrido (os agricultores e sericultores atacados eram considerados traidores por produzirem em benefício dos inimigos do Japão). Em 1945, quando o Japão se rendeu após os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki, circulou na comunidade nipo-brasileira uma notícia falsa, com fotos dos representantes japoneses no encouraçado americano Missouri, afirmando serem cenas da rendição americana ao Japão publicadas no jornal "A Tribuna" de Santos de 16 de setembro.
|
Fonte: http://www.imigracaojaponesa.com.br/











